quinta-feira, 24 de junho de 2010

Do Hotel Medea ou Do teatro interativo contemporâneo pop de potência




São obras que te surpreendem.

Hotel Medea.

Primeiro, tenho de deixar claro que o local onde a peça foi encenada (Oi Futuro) não ajuda em nada o ritualístico da primeira parte do espetáculo. Com muita roda, rituais e bumba-meu-boi, a atmosfera rústica e popular pretendia contrasta diretamente com a galeria do Oi Futuro altamente ocidental e moderna. Ao procurar fotos, achei ela sendo feita ao ar livre com uma grande fogueira e um ar muito mais soturno. O clima deve ser muito menos de festa e mais de ritual (sendo repetitivo). Ali, parece uma tentativa de Teatro Oficina sem a mesma potencia.
Termino a primeira parte surpreendido, pois esperava algo muito mais pesado e menos festivo mas suspiro "pô, um entretenimento pop contemporâneo". E pretendo só me divertir deli pra frente. Eram menos de duas horas da manhã. A peça iria até as cinco.
Aliás, eu fui o "very important man" que informou a hora pro "condutor" da peça.
A plateia, neste começo é conduzida de forma coletiva, e o trabalho de interatividade e de participação co público é em cima de grupo. Danças e cantos entoados por todos levantando o tal do sentimento oceânico.

Mas, porém, contudo, todavia quando essa busca da coletividade é substituida pela individualidade a coisa muda e é impressionante.
É clichê dizer que o público se torna um personagem, mas é verdade. E não só parte de um coro, mas você tem individualidade no meio de tanta gente. Você não é mais um no meio de tantos mas é tratado de forma única. As babás contam história e te dão chocolate. Você não é representado por apenas uma pessoa catada da plateia mas sas ações individuais atuam sobre o ator/performer que está interagindo com você.

A relação conseguida na segunda parte com as camas, a Medéia, as babás e até mesmo com o Jasão (e eu não esquecerei tão cedo da babá me entregando o celular com a mensagem de meu pai desejando bons sonhos) é impressionante. Há um jogo de distanciamento e aproximação de uma potencia emocionante.

Na terceira parte o espectador já está entregue e se diverte em fazer parte da peça. A questão toda é que temos a impressão de que além de assistir, o espetáculo quer nos ouvir também. As babás conseguem de fato criar uma relação afetiva com seus filhos.

O espetáculo é bem fechado em sua estrutura e o espaço dado ao espectador é limitado à medida que a história tem que avançar na direção necessária. Mas nos momentos em que a peça pergunta algo a nós, a mágica acontece.

Eu achei o final um tanto fraco, a peça faz uma curva e perde fôlego justamente na sua última cena. Não senti um grande impacto como deveria, falta uma certa construção. Talvez eu tenha esvaziado em algum momento. Não mudou a minha vida mas foi um espetáculo que me deu material pra cacete como artista.

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E cada vez mais eu percebo que o público quer participar da porra do espetáculo. Seja em trabalhos de faculdade ou em espetáculos no Oi Futuro, se o público passa por uma experiência sensorial, além da experiência intelectual, a coisa toma uma medida de potencia incrível. As pessoas não querem mais o participar por participar. As pessoas querem viver, vivenciar o teatro.
Ou algo do tipo.
Vou pensar mais nisso nos meus trabalhos. Definitivamente.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Do homem do guarda chuva ou De combinandinho na chuva




Deve ter sido ano passado.

Do falso diálogo ou D'eu não sei reproduzir a fala da Vovó Elza

- Vovó Elza - Amanhã, se fizer frio de manhã eu não vou pra minha aula de natação. Tá frio hoje? Tô sentindo um frio. Aí tenho que passar no supermercado pra comprar frango. Sua mãe só come frango. Só tenho 5 reais na bolsa. Ai não sei o que aconteceu esse mês que o dinheiro foi todo embora, mas a coisa vai melhorar. Deus vai dar um jeito nisso. Eu vou tirar meu dinheiro do banco. Todo mês eles tiram dinheiro de mim. Fui pegar dinheiro e estava faltando 200 reais. E nem posso pegar dinheiro emprestado porque já estou velha. Eles sempre me oferecem mas quando chego lá eles dizem "ô vovó, não vai dar, é só até 75 anos". Mas também, eu vou morrer antes de pagar tudo. Queria pegar um dinheiro pra deixar pra você e sua mãe, aí eu morro e vocês não pagam nada. Já está indo pra aula? Vai estudar, menino. Chega tarde hoje? Vai almoçar antes de sair? Tá passando jogo? Qual o jogo de hoje? Ah, queria que a África do Sul ganhasse. E a Argentina perdesse. Eu não gosto do Robinho. E essa coisa colorida do seu lado, o que é? Ela não fala nada? Senta aí, vou fazer uma carne assada pra você comer. Fica a vontade. É estrangeira? Hum, se seu avô tivesse aceitado aquele trabalho estariamos no México hoje. Quer feijão?
- Vuvuzela - Póóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóó óóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóó

Da expressão fotográfica ou Se eles têm vuvuzela eu tenho a vovóElza



Eu não sei tirar fotos. Sempre saio com a mesma cara de bunda, então a cada foto eu faço um estudo de expressão. Quase sempre "atuo" (e bota aspas nisso) nas fotos e depois vejo o resultado na foto. É tipo foto de peça, só que no cotidiano.
Na verdade eu só percebi isso ontem, mas vou levar minhas pesquisa mais a sério. Pode ser interessante.

Aliás, eu não estava soprando a vuvuzela, que enquanto era tocada se tornava a mais legal do bar com sua voz rouca de câncer de laringe, ou pato pros menos mórbidos. Pena que ela morreu (deve ter sido do câncer). Devia ter gravado pra deixar aqui.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Da estréia na Copa do Mundo ou Da voz onipresente

É impressionante. O que percebi hoje não deve ser novidade pra muita gente, mas é incrível a força do futebol da copa do mundo no Brasil.
Foi a primeira vez que passei um jogo da copa na rua, em um boteco. Naturalmente cheguei atrasado após uma aula (porque sim, eu tive aula) e estava na rua durante o começo do jogo.
Podia ouvir uma voz de uma multidão de não sei aonde quando ouvi o jogo e depois ouvi um urro sobrenatural, uma voz onipresente de todos os lados no primeiro lance de perigo da seleção. Isso só no caminho até o bar onde encontraria as pessoas com as quais eu assistiria o jogo. Gostaria de estar no meio da rua na hora do primeiro gol pra sentir e entender essa multidão toda gritando e comemorando ao mesmo tempo. Um país inteiro fazendo a mesma coisa, é impressionante. Só tive essa sensação no ano novo, quando por pelo menos um segundo, todo mundo pensa e deseja a mesma coisa. Copa do mundo e o futebol me dizem que a mesma coisa acontece.

Aliás, quanto ao jogo, bem meia boca.

Ontem mesmo, tirei uma foto de um bar cheio, lotado, com pessoas no meio da rua em pleno meio dia e meio no centro da cidade assistindo Suíça e Camarões (ou algo do tipo, depois eu confirmo o jogo porque sinceramente eu não lembro).

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Ouvindo a voz do Brasil (monopólio das 19 hs) descubro que o consumo de energia durante os jogos do Brasil diminui muito pois os grandes consumidores e empresas não funcionam neste horário. E o consumo aumenta bruscamente durante o intervalo e o final, pois é o horário que as pessoas vão até a geladeira, ligam o microondas, põem a cerveja pra gelar.
Das coisas que eu nunca pensaria.

Da resignificação do espaço ou Não era do elevador não

Da contra-mão ou não ou Do caminho para os sonhos segundo ela

video

Do vídeo da poesia ou Da pausa

video

Da apresentação do caderno ou Da solidão da lata n'ATTs da vida



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Eu tenho dificuldades em me expor, logo, fiz um blog. Ninguém vai ler mesmo né.
Foram trabalhos muito interessantes de entrega de caderno, fiquei realmente emocionado. Gostaria de falar alguma coisa, dizer, dançar ou gritar mas fiquei calado babando, coo faço habitualmente com tudo. Vai ver por isso eu sou ator. Porque tem algum lugar no mundo que eu não preciso pensar duas vezes pra me mostrar. Esse lugar está em mim mesmo, só preciso visitá-lo um pouco mais além dos palcos.

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Performance em uma escola de artes. Acho que perde potência. É uma relação complicada. Hoje mesmo eu cheguei no meu andar pra fazer aula e preparar a minha intervenção espacial (que não teve lá grande potência, aliás. Mas vou pensar em algo melhor) e no final do corredor havia uma menina nua na porta de outra sala. Eu olhei e pensei "Ah, é uma performance de alguma aula" e segui a minha vida. Depois havia uma menina com um boneco inflável e um vibrador enorme embutido e eu pensei a mesma coisa. É algo a ser pensado. Ou pelo menos me fez pensar. Como potencializar a obra de arte em um lugar acostumado com a contestação?
É óbvio que é um lugar seguro pra exercício. Mas me fez pensar. Talvez em como trabalhar com o invisível individual.

Ao mesmo tempo, li minha poesia para alguém e toquei a pessoa. O trabalho do lírico, no mesmo lugar mas na esfera individual. Me emocionei também com a reação. Fiquei feliz em tocar alguém assim. Se alguém consegue tocar um outro pelo menos algumas vezes na vida, então o trabalho de viver e andar sem mudar de sapatos por aí vai ter valido a pena.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Do tempo ou Do artista paradoxo

Tô sem tempo pra ser artista porque estou gastando muito tempo trabalhando como artista.

Do aviso das performances ou Antes atrasado do que nunca

E em breve, notícias, detalhes e registros sobre performances neste blog / caderno.

Fica o suspense.

Das mortes prematuras do 7º andar ou Da morbidez que habita minha cabecinha doente mas nem tanto

- Pár ou ímpar?
- Pár.
- Ímpar.
(ambos) - Do lá sí já!
- Ganhei!
- Hum merda. Tá bom, eu pulo.
- Mas mergulha direito, de cabeça.
- Tá bom, tá bom. Depois você pula.
- Ok.
- Lá vou eu: 3, 2, 1...

(ouve se a batida surda de um corpo caido do sétimo andar)

- Ah, pensando bem... acho que não vou brincar mais não.

(sai pela porta da direita enquanto sons de sirene são ouvidos ao fundo. Uma comitiva de 5 carros de polícia e uma ambulância da UNIMED escolta o ônibus do time de Softball das Ilhas Virgens. Ouvem-se gritos, gol da seleção brasileira na semi final do futsal).

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Glossário:
SOFTBALL - baseball para mulheres (descobri isso dia desses, tinha que compartilhar com o mundo).


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- Me faz um favor?
- Diz.
- Vai até o guarda roupa e pega aquela sua bolsa azul.
- A azul?
- Essa mesma.

(pega a bolsa)

- Pronto. E agora?
- Enche ela das suas roupas. O máximo que você conseguir.
- O máximo mesmo? Não vai caber tudo.
- Tudo bem se sobrar algumas do lado de fora. Mas enche o máximo.
- Ok.

(enche a bolsa)

- Pronto, terminei. E agora?
- Tá vendo aquela janela ali?
- Aham.
- Sobe no parapeito, conta até 5 de olhos fechados e depois se deixa cair.
- Até 5?
- Melhor ainda, conta até 3. De olho fechado.
- Mas a gente tá no sétimo andar. Não vai machucar?
- A vida é feita de riscos, não é verdade?
- É. Acho que você está certa.
- Vai lá. Faz isso por mim enquanto eu termino de esquentar a minha janta.
- Tá bom... olha, eu te amo, viu.
- Eu também. Agora faz isso por mim.
- Ok. 3... 2... 1...

(estrondo)

- É... acho que vou deixar pra jantar depois.

(Ela sai deixando o fogo ligado, depois de algumas horas o cheiro de feijão queimado toma todo o apartamento. No play abaixo da janela do apartamento um grupo de crianças brinca em torno do homem com a mochila azul salpicada de vermelho.
Alguém do apartamento vizinho grita:

- Alguém esqueceu o feijão no fogo!)

D'os Sete Gatinhos ou Ô Noronha, tu é um rapaz simpático

Adoro Nelson Rodrigues. Uma das peças que mais gostei de fazer foi Os Sete Gatinhos. Adoro a passionalidade e não lógica dos personagens. As esticomitias (uhm, que chique) e seus diálogos rápidos e suas estruturas apresentando os personagens e suas hipocrisias perante a sociedade.
E suas rubricas indecifráveis.
Nesse texto, Os Sete Gatinhos, o Nelson até que não dirige tanto quanto o habitual. Ele nem define tanto assim o cenário. Como ator é divertido entender (ou tentar entender) as rubricas mas não podemos nos fechar só a elas.
Saudades de encenar Nelson. Fiz o coro de Senhora dos Afogados, mas não tem a mesma profundidade da culpa do ser humano.

E da beleza de quando este se livra finalmente dela.

Do acaso do dicionário ou Porque eu tinha que ter faltado aquela aula, merda?

Mascarado
Entreaberto

Saída de um hospital. Um homem com as mãos na barriga sai do hospital. Ele cambaleia e cai. Muito preocupado com sua barriga, levanta e segue andando. Parece forte mas sente algumas pontadas de dor. Um mascarado o olha e o segue. O homem com as mãos na barriga fica nervoso e anda mais rápido, percebe que não conseguirá fugir do mascarado, volta ainda com a mão na barriga e o encara.

- Entreaberto - O que foi? Porque está me seguindo?
- Mascarado - Desculpe, não pude evitar. O senhor parecia estar a ponto de morrer a qualquer momento.
- Entreaberto - E o que isso lhe dá o direito de me seguir?
- Mascarado - Me desculpe. Não queria lhe assustar.

(o homem mascarado tira de sua maleta uma pequena bolsa com agulha e linha)

- Mascarado - Você quer emprestado?
- Entreaberto (confuso, como quem finge não entender) - E porque eu iria querer emprestado? E porque essa máscara?
- Mascarado - Se eu te disser vou ter que te matar. (entreaberto faz uma cara de espanto) Estou brincando. É só pra fechar isso aí. Você tá todo aberto, não tá?
- Entreaberto - Entreaberto. Não fecharam todo os pontos da minha operação de apêndice. Precisava sair rápido pra chegar no trabalho. Mas como fiquei três dias em coma no hospital por causa da operação eu não pude carregar meu celular e não posso ligar pro meu chefe pra avisar que já faltei 3 dias e vou chegar atrasado hoje. (como se tivesse um lapso de consciência). Hei, mas porque eu estou te contando tudo isso?
- Mascarado - Eu estou de máscara. Isso inspira mais confiança.
- Entreaberto - O que você falou não tem lógica.
- Mascarado - Estamos quites.
- Entreaberto - Enfim, tenho que correr. Não há taxis a essa hora e eu não ando de ônibus. Tenho fobia. Só mesmo andando a pé.
- Mascarado - Não quer mesmo a agulha e a linha?
- Entreaberto - Não. Definitivamente não. Mas você tem cigarros?
- Mascarado - Não. Minha máscara cobre o rosto inteiro. Se eu fumar eu fico sufocado.
- Entreaberto - Ok. Entendo.
- Mascarado - Mas, como eu ia dizendo. Você vai morrer?
- Entreaberto - Acho que não. Não pretendo.
- Mascarado - Eu estou te seguindo só por isso.
- Entreaberto - O que você vai fazer se eu morrer?
- Mascarado - Eu assisti um filme dia desses com o Hopkins. Ele usava uma máscara com a pele de um homem. Achei beminteressante, gostaria de testar. Mas como não sou um assassino eu não vou matar ninguém. Tenho que esperar alguém morrer. E você não sabe o quanto é difícil alguém morrer sozinho nessas ruas.
- Entreaberto - E porque me ofereceu a agulha pra eu melhorar?
- Mascarado - A agulha está enferrujada. Mas aí eu espero alguém morrer sozinho. Em grupo não consigo trabalhar. As pessoas julgam muito esse aspecto da máscara de ser humano.
- Entreaberto - Cabeças fechadas.
- Mascarado - Vai morrer ou não vai?
- Entreaberto - Hoje não.
- Mascarado - Merda. Ok, qualquer coisa me avise.
- Entreaberto - Está bem.
- Mascarado - Prazer.
- Entreaberto - Prazer.

Entreaberto segue andando e ouve Mascarado

- Mascarado - Tchau! (acena com uma das mãos)
- Entreaberto - Tchau! (num impulso levanta uma das mãos e acena para Mascarado. Suas visceras caem no chão manchando tudo de sangue. Ela geme e agoniza. Cai. Tenta juntar seus orgãos e por de volta mas não consegue, não tem forças. Trinca os dentes. Morre. Mascarado chega perto do rosto dele com um pequeno estilete e começa a tirar a pele de seu rosto enquanto resmunga).

- Mascarado - Pena. Esse cara nem é tão bonito assim.

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Como faltei a aula do sorteio dos personagens para criar um diálogo, pedi para que sorteassem (o pronome indefinido é a Patrícia) dois adjetivos no dicionário para criar o texto.
Deu no que deu.

Do Arquiteto em Helsinki ou Coisa mais fofa nhonhonho

Architecture in Helsinki - Fumble from Gill Biddle on Vimeo.



Só posto clipe velho mas nem tanto né?

De como começou ou Do começo do meio do caminho

Nel mezzo del camin (Olavo Bilac)

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida : longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha

Hoje segues de novo...na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo

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Foi isso aí que me fez interessar por poesia. E por causa da leitura.

Do Como Quem não é ninguém ou Importado de 2005

Sensação estranha. Sentimento estranho.
Andando em direção ao metrô Del Castilho, caminho rotineiro das minhas terças-feiras, fazendo sem medo ou vergonha exercícios recomendados pela minha fonoaudióloga.
Subindo as escadas de ferro que dão acesso ao metrô, duas senhoras tentam sem sucesso falar com uma terceira pessoa, e com o não surgimento da resposta esperada, riem como quem diz "eu hein" e vão embora, e eu finalmente a vejo.
Sentada no canto do último degrau que dá acesso a um longo corredor, com o rosto meio escondido, olhos fechadoscomo quem dorme (e talvez realmente dormisse), encolhida com os cabelos longos, cacheados, de uniforme do Pedro II. Blusa e saia (chuviscava insistentemente) do Colégio Pedro II.
Passei direto, talvez tenha chegado a olhar pra trás, pra vê-la de novo. Mas olhando ou não, por todo o caminho ela estava nos meus pensamentos.
Ela, ali, de saia e uniforme, enquanto chuviscava. Ela estava, era linda. De fato, qualquer menina é linda enquanto dorme, especialmente ela, mas estava no lugar errado. Na verdade, tudo convergia para uma daquelas cenas melancólicas de filmes ingleses, passadas em Londres. A diferença é que desta vez não era filme, era real. Aquela menina era real e não combinava com todo o resto.
Podia tentar (e tentei) fazer paralelos com Nelson Rodrigues (qualquer menina de uniforme escolar é Rodrigueano), Bertolt Brecht (qualquer pessoa jogada ao léu da consciência alheia retoma a Brecht), ou até Maria Clara Machado (era uma criança afinal). Mas o que não batia era o realismo imposto naquela cena, por mais teatral ou cinematográfico que aquele quadro fosse.
Perdido, fui até o guichê e comprei meu bilhete. Peguei um folheto qualquer sobre integração metrô-ônibus e tentei fingir a mim mesmo algum interesse. Um desastre.
Já com o bilhete na mão, resolvi tentar ver aquela menina de novo. Não dava pra vê-la da estação, então subi algumas escadase voltei a vê-la. E lá estava ela, como sempre esteve pra mim. A exata posição anteriore só um corredor de uns dez metros nos separando.
Na verdade mais do que isso.
Eu fiquei parado por uns quinze segundos, pensando, tentando tomar aqueles cinco copos de vinho internos que me trariam a embriaguez necessária capaz de vencer a timidez, o medo, enfim, a mim mesmo.
Uma coisa nos unia e talvez isso bastasse. Eu sou ex-aluno do Pedro II. Poderia ser eu ali. Seria o primeiro passo para algo que poderia fazer a diferença na vida daquela menina e mais ainda na minha vida.
E enquanto eu estava sempre em movimento, ela permanecia inerte, só, não sei se queria ter alguém do seu lado, se sonhava ou esperava alguém. Mas eu queria estar do seu lado. Talvez nem recebesse respota. Ou talvez conhecesse a pessoa com quem passaria o resto da minha vida, mas só queria a sensação de tentar ou poder ajudar. Não ter todos esses "talvez" agora.
E ao mesmo tempo ela dormia, e eu não queria acordá-la. Só queria que ela estivesse ddormindo em outro lugar que não ali.
Estava atrasado para onde ia. Quase que automaticamente, sai da minha inércia ativa e, sem conseguir achar os cinco copos de vinho, dei meia volta em direção ao metrô.
Sempre pensando nela, sempre querendo voltar, fui andando como que sem alma, introduzi o bilhete na catraca e passei para o outro lado.
Poderia voltar e fazer o que devia ter feito, mas simplesmente não fazia. Simplesmente continuava o que já tinha começado. E a cada estação que passava, pensava em voltar, mas não voltava.
E imagino se ela ainda está lá, ou aonde estaria. O que teria acontecido, qual o seu nome, que unidade do Pedro II estuda...
E que se mil pessoas passaram por aquela menina e nem perceberam, nem se importaram, pelo menos uma delas se preocupou e tentou voltar, ajudar. Mas não o fez. E o fato de não fazer faz essa pessoa ser exatamente igual a todas as outras que pasaram reto por aquela menina que dormia ali, na chuva.
E o mais estranho é que aquela menina nunca vai saber da importância que teve aquele momento pra mim. E eu nunca nem vou poder contar.

Sempre no futuro do pretérito. Tempo inútil.

Da festa de Aniversário ou Do cara que fez uma participação na novela das seis

Estava voltando da faculdade no ônibus. Horário de rush e eu estava em pé mais pro fundo do ônibus. Durante a viagem, a galera do fundão puxou salgadinhos, refrigerante e cantaram parabéns. Cantaram músicas de aniversário, ofereceram salgados. Catnaram "fulano roubou pão" com as pessoas do fundão e fizeram uma senhora levantar da cadeira pra ensinar uma música.
Isso aconteceu a alguns meses e eu lembro ainda hoje. As pessoas sorriam em um engarrafamento com fumaça nos olhos na linha vermelha. E cantaram juntas.

E cada uma deu tchau umas pra outras antes de saltar do ônibus. Essas coisas são absurdamente especias. Têm mais impacto no mundo do que qualquer tiro dado por aí.

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E passando nesse mesmo ônibus vejo no teatro Raul Cortez de Duque de Caxias a propaganda na porta gigante do teatro "Peça tal com Fulano da Novela das Seis". Eu não tinha ideia de quem era o fulano. Mas estava lá escrito.
Eu acho que subestimam a plateia caxiense. Em um lugar onde In On It tem um público razoável e está longe de ter uma "classe teatral" grande o suficiente pra encher um teatro, não acho que se precise falar do tal cara da novela das seis.

Mas eu já vi por aí um "com o cara que participou do Se Vira nos 30 do Faustão". Caxias ainda está com alguma moral.

Do Warhol equivocado ou Da Gata Sexy Mahine



Pop Cat Art.

Eu gosto da sensualidade e das cores coloridas.
Ah, e da redundância também.

Beijando os sem lábios ou Ai que saudade dos meus 17

The Shins "Kissing the Lipless" from Sub Pop Records on Vimeo.



Referências dos passados

"O Novo Inquilino" ou Quem sair por último apaga a luz e acaba a peça

Falando em rubricas, "O Novo Inquilino" do Ionescu é do cacete. Basicamente é um homem se mudando. O Eugenio trabalha com a linguagem e a perda do sentido das palavras e do diálogo a partir de uma porteira que fala para um homem que não quer ouvir. E os sentidos do que ela diz simplesmente vão se perdendo. E pouco a pouco os diálogos vão rareando enquanto as rubricas vão se tornando cada vez maiores.

Ionescu quase dirige a peça, mas não há o que fazer. A ação predomina da metade para o final com carregadores trazendo móveis para a casa do homem até ficar entulhado.
É muito divertido, sofisticado e simples ao mesmo tempo.

Será uma das minhas peças favoritas? Acho que não.

Mas é uma das mais interessantes. Isso sim.

"O Rico Avarento" ou De ler a peça que faço de novo

No meio da biblioteca de ATT está O Rico Avarento, de Ariano Suassuna. Qual não foi a minha surpresa. Li mais uma vez. A montagem bibelot minha do momento é "O Rico Avarento e Outras Histórias de Ariano Suassuna" que estará inclusive no Teatro Municipal de Niterói como infantil em agosto. Assistam porque vale a pena. Eu mesmo faço o rico.

Apesar de partir de um teatro de mamulengos, é perfeitamente possível ser montado por humanos (é o meu caso, pois eu sou humano em boa parte das vezes). As rubricas então se tornam interessantes pois dizem respeito a uma relação de bonecos. Mas o Suassuna faz muito isso em suas peças. Essa brincadeira do humano com o boneco para simbolizar uma humanização moral e talz.
É divertido fazer esse texto pra crianças pois apesar da moralização reliogiosa, o texto é recheado de pequenas sacanagens e termos como "Escreveu não leu, o cacete comeu." que podem parecer assustadores pro politicamente correto de hoje. E as crianças gostam. Se divertem. E os pais também.

Com os bonecos do mamulengo, uma certa inspiração do circo também acaba chegando e é dessa brincadeira que as relações de formam. As quebras da plateia e o Tirateima se dirigindo diretamente com seus a partes (ou à partes?).

Ariano Suassuna is cool. E ele deve ter sentido uma coceira ao ser chamado de cool.

Do Despertar ou Referências pra Int I

Gnarls Barkley - Who's Gonna Save My Soul from Chris Milk on Vimeo.



Essencial



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Boy Band com showzinho do cacete hein.

domingo, 13 de junho de 2010

Do Amor de Fedra ou De como eu entendo o Hipólito apesar de não comer tanta gente assim

Cortam lhe os bagos, a carne, aparece o abutre pra comer seus restos, sua adrasta de suicida, seu pai mata sua irmã depois de estuprá-la e ele, o Ulisses punheteiro e comedor ainda morre feliz.

Eu entendi o drama do rapaz. O não sentimento e a banalização de tudo. As pessoas o amam por sim mesmas. Ninguém faz nada por ele. Não se afetam ou sentem até aparecer a madrasta fogosa. Que dá mais por ela mesma, mas que morre por ele. Ou não. Quem sabe.

Finalmente algo acontece em sua vida que faz ter sentido. Finalmente ele desperta algo nas pessoas e as pessoas sentem algo por ele de forma genuina. E o matam e ele morre. E sorri.
Eu gostei e muito do cara, o Ulisses.

Há uma mistura interessante entre o texto clássico e as relações contemporâneas. A frieza de setimentos e a banalização das relações com a tragédia.
Fico imaginando como eu montaria. Meu sonho mesmo seria fazer a plateia parte da multidão enfurecida final. A malhação de Judas. Mas teria de imaginar como isso seria.

Pena que a tal família da Sarah Kanne, segundo fontes francesas, seja tão chata com o texto.

Nhé.

Do manual de instruções ou Como usar uma cadeira?




Deve estar escrito: "Sentar na parte acolchoada." ou "Não utilizar em montagens teatrais como objeto resignificado."

"The observation I am doing could easily be understood as cynical demeanour, but one of us misread" ou Base do que não quero ouvir

Eu não sei se ele ainda gosta de calda em cima do pudim. Se pára de pedalar pra bicicleta andar sozinha. Se coloca uma colher e meia de açúcar no café. Se corre pro ponto antes que o ônibus saia de lá, ou se deixa o ônibus ir e espera o próximo. Eu não sei se ele gosta de andar descalço no carpete. Se morde a bala, ou se chupa. Se deixa o primeiro botão da camisa aberto, ou se não usa camisa de botão. Eu não sei se ele desviaria o olhar, ou se continuaria olhando. Se ele tivesse ficado por pelo menos mais um pra sempre. Mas hoje eu não sei nem mais quantos palmos meus cobriam o seu rosto.

As pessoas sempre vão, sabe. E você acaba esquecendo. E você acaba descobrindo que dá pra viver sem elas e que vai faltar assunto quando você encontrá-las inesperadamente na fila do caixa eletrônico. Não que não tenha sido bom, não que você deixe de pensar nelas, mas você acaba se acostumando com a ausência das coisas, seja a pipa do seu time que ficou presa na árvore, seja o seu melhor amigo da 2ª série, ou a sua cama antiga, que era bem mais macia que a nova.

E foi assim que aconteceu. Ele pegou o copo d’água dele no balcão e eu o meu. E eu não soube o que dizer.

- Ta tudo bem, sim. (Eu só não sei se você ainda enche as mãos de areia e joga tudo no pé. Então não, não está tudo bem, porque eu descobri que posso esbarrar com a superficialidade com a mesma facilidade de quem abre a boca pra falar. Descobri que não tenho mais vontade de te fazer rir, e pensar que eu achei que te desejaria pra sempre. Não é culpa sua, meu bem, nem minha. Chega uma hora em que a gente não sente nem mais falta, né? Por mais que eu pense, nada vai trazer o que quer que seja de volta, e eu nem me sinto mal por isso, porque nem mais vontade eu sinto. Acho que se eu tivesse que passar a morar numa gaveta eu me acostumaria, assim como me acostumei com esse meu corte de cabelo tosco e com a sua ausência. E, sabe, infelizmente, eu não acho isso ruim.) E com você?

Marina Dias
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Referências de vida.

Fale me doce como a chuva ou Essa peça é dramática com uma pitada épica

"Fala comigo doce como a chuva... e deixe me escutar"

Fiz um trecho a pouco tempo de "Esta propriedade está condenada". A estrutura é interessante e parecida. Duas do Tenesse Willians. O texto é dramático, a ação e o conflito transcorre através do diálogo de dois personagens, porém é recheado de falsos diálogos. Boa parte da história é contada através do movimento interno dos personagens. E esse movimento é traduzido através de histórias vividas ou sonhadas por estes. Eles contam o que lhes aconteceu.
Poderia cair em uma exposição gratuita, mas há um certo jogo de profundidade em que os personagens sentem do que falam. Narradores de si mesmos e escondem o que aquilo tudo de fato significa. São diálogos quase solitários, onde quem conta, fala de si, fala por falar. É como se o mundo não se importasse com o que lhes acontece e como tal os afeta. Estão sozinhos, falam sozinhos, mas precisam de companhia para que eles provem a si mesmos que não estão mortos. Ainda que o que lhes acontece internamente não tenha a menor importância para o universo a sua volta.

Do comentário do Baudrillard ou É Baudrillard e não Baudelaire, cacete

“Existem os falsários da nulidade, existe o esnobismo da nulidade, os que vão transformando nada em valor. Não podemos deixar agir esses falsários (...) existe uma estratégia comercial na nulidade.”
Baudrillard
O Complô da Arte

O complô do homem. Acredito que a arte seja constituída de camadas e que o homem tem a absoluta necessidade do poder quando não consegue provar a si mesmo que o ego não é o seu melhor bem material.
Assim, a arte busca uma compreensão universal tocando a partir do individual. Não digo uma compreensão formal, mas de relação com a obra. Seja o clássico reconhecível à primeira vista até a vivência e a busca das sensações do espectador, interator, outro lado da obra. Se não me toca, não é arte. Hoje podemos considerar desta forma já que o conceito de arte se encontra muito elástico. Porém nem tudo que me toca é arte.
Assim, uma forma de poder é afirmar que “eu posso enquanto você não pode”. Ao destituir uma obra das camadas mais superficiais e entrando diretamente nas camadas profundas que exigem um conhecimento técnico da coisa para a fruição da arte. Assim, transforma-se o leigo em ignorante. Esse ignorante se sente ignorante e se afasta da obra. E o ciclo vai ficando cada vez mais fechado.
Baudrillard é um pouco radical. Mas no fim das contas criou polêmica. Polêmica faz pensar. Pensar sempre funciona.

Do diálogo cheio de regrinhas ou H1N1 e México, uma dupla mutcho lôca!

Em uma fila do banco Santander

Ela – Essa fila é pra consulta de crédito pra aposentados?
Ele – Não sei, acho que não.
Ela – A fila é pra que?
Ele – Eu pretendo pagar o meu IPVA.
Ela – Ah sim.
Ele – Meu carro já está com seis anos de IPVA atrasado. Na verdade eu nunca paguei o IPVA dele.
Ela – E porque a mudança de pensamento?
Ele – Fui pego numa blitz.
Ela – Em seis anos você nunca foi parado por uma blitz antes?
Ele – Já. Claro que sim. O policiamento nesta cidade está cada vez melhor. Em todo canto se vê um policial, uma viatura.
Ela – Ué?
Ele – Só que dessa vez o filho da puta do policial era honesto. Isso nunca me aconteceu antes.
Ela – Você ta falando sério? Que azar.
Ele – Pois é. Vou ter de pagar o IPVA.
Ela – Que merda hein.
Ele – Pois é. Eu não confio no governo. Vou repassar meu dinheiro pro governador pro governador repassar meu dinheiro pra pagar o policial? Pago direto ao policial, ali ao vivo. Pelo menos eu sei que meu dinheiro está sendo bem investido.
Ela – É justo. Com licença. Guarda o lugar pra mim por favor.
Ele – Ok.

A mulher vai em direção ao banheiro. Ouve-se ao longe um espirro. Segundos depois mais um espirro. Segue-se um terceiro espirro. A mulher volta com um ar satisfeito.

Ele – Gripe?
Ela – Gripe.
Ele – Tempo?
Ela – Mais ou menos.
Ele – Mudança de tempo?
Ela – Mudança de ares.
Ele – Ares?
Ela – Viagem.
Ele – Ah sim.
Ela – Pois é.

(...)

Ele – Peraí. Que tem a ver a viagem com o espirro?
Ela – Tanto quanto o espirro tem a ver com o porco.
Ele – (?!)
Ela – Eu estava no méxico.
Ele – Eu adoro o México. Eu não conheço pessoalmente, mas tenho muita simpatia pelo time de futebol deles.
Ela – Sei.
Ele – Conhece o Irritia? Eu acho um dos laterais mais talentosos dos últimos 3 meses. É impressionante. Eu nunca achei que um canhoto fosse capaz de fazer o que ele faz.
Ela – Canhoto é?
Ele – Canhoto. Mas atua como um destro. E ele usa chuteiras tão amarelas que quando ele chuta uma bola parece que está acontecendo um eclipse solar. É de uma beleza estonteante. A senhora não pode imaginar.
Ela – A senhora está no céu. Mas não posso imaginar mesmo.
Ele – A senhora visitou o estádio Cuchucurro de los Quentais?
Ela – Não.
Ele – Pois quem vai ao México e não visita o Cuchurro de los Quentais não é um amante do futebol de verdade. A senhora é uma amante do futebol de verdade?
Ela – Não.
Ele – Viu. Exatamente o que eu quis dizer.
Ela – Pois é. Me dá mais um minuto por favor.

A mulher sai novamente em direção ao banheiro. Como antes, três espirros e volta com um ar satisfeito.

Ele – Ah sim, a senhora ia me falar sobre os ares.
Ela – Sim, os ares do México. Comi um porco de pés descalços num dia de chuva. Peguei a gripe suína?
Ele – Suína?
Ela – O chão estava molhado.
Ele – Ah sim. H1N1?
Ela – É.
Ele – Meu Deus. Você sabe que é contagioso né? Você pode matar todos nós aqui dentro.
Ela – Sim, mas não tão rápido assim. Eu vi que leva até 2 meses pra morrer disso. É por isso que só espirro no banheiro. Só mato quem freqüentar a terceira cabine do banheiro feminino.
Ele – Ah bom.
Ela – Viajei pro México só pra pegar a tal gripe. Fique lá por três semanas mas só consegui pegar ontem quando tive a idéia de tirar os sapatos dos pés. Minha avó sempre disse que andar de pés descalços deixa a gente gripado. Devia ter ouvido a velhinha antes. Almocei um porco bem mal passado enquanto passeava pelas ruas do México até chegar no aeroporto. Na verdade estava desesperançada, no sentido de não ter esperança, mas qual não foi a minha alegria ao desembarcar no Brasil e dar meu primeiro espirro. E depois outros dois. Eles nunca vem sozinhos. Porque será que os espirros sempre vem em trio hein?
Ele – Carência.
Ela – Agora estou aqui, espirrando. Mas nunca perto do senhor. Cultivei certa simpatia pela sua pessoa.
Ele – E a senhora não vai se tratar?
Ela – Mas eu já não falei que eu fui pro México só pra pegar o raio do porco? Tenho muito o que fazer antes de me cuidar. Mas o que eu quero fazer mesmo é...

(barulho do sinal dos caixas, chamam o homem para este ser atendido

Ele – Com licença.
Ela – Toda.

O homem vai ao caixa ser atendido. A mulher espera por alguns minutos. Quer ir ao banheiro para espirrar mas não pode sair da fila pois logo será a sua vez. Segura o espirro. Toca o sinal dos caixas. Ela vai ser atendida. O caixa sempre sorridente.

Ela – Olá.
Caixa – Sim senhora. O que deseja?
Ela – Meu querido. Gostaria de pedir um empréstimo para uma viajem que fiz por esses dias.
Caixa – Sim senhora. Vejo aqui que a senhora pode contrair um crédito de 10 mil reais.
Ela – Eu gostaria de 100.000 reais. A viajem foi longa.
Caixa – Ah sim. Eu poderia lhe conceder este dinheiro agora e a senhora pagaria em pequenas prestações de 20.000 reais ao longo de apenas 27 anos com nossos juros mínimos.
Ela – 27 anos? Acho que dá sim. Perfeito.
Caixa – É só assinar. E aqui está o seu dinheiro.
Ela – Muito obrigada. (ela espirra, salpicando saliva no caixa do banco, que se limpa com um sorriso no rosto). Ops, desculpe-me. Tenha um bom dia.
Caixa – Próximo! (espirro)

Da poesia a partir da estrutura ou Do poema das Palavras Confusas que Falam de Alguém próximo

esta boca de onde nascem feras e falos / e lábios que cortam os rumos da cintura, púbis, pênis, mais do que lançar minhas coxas e seu pescoço / sonho caçar as mulas que habitam pântanos nas orelhas pra dizer um potro de pedra mais que medra é todo campo que rumina nos campos de abandono: longe um lobo eu no escuro / um lobo eu faminto distante, mais distante que a distância de nós, esmo com um rio com mil poços e mil peixes sou este que brame no desespero de cigarra um grilo com aquele cricri e depois / pára

poesia de alguém cujo nome eu não lembro mas que espero poder sanar esta dúvida em breve

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aquele olhar do qual fogem moinhos e universos / e luzes que cegam os caminhos do medo, horror, solidão, mais do que despertar suas paixões e suas mágoas / podes pegar as marcas que rasgam paredes nos quartos pra buscar uma linha de lógica menos oculta dando todo rosto que chora nas miras do cansaço: perto uma perda tua na dor / uma árvore ela solitária seca, menos sozinha que o controle do vós, claro com uma cria com três asas e cinco olhos é aquele que busca no excesso da perfeição um defeito com esse olhar e depois / perde

poesia de Pedro Maia - inspirada estruturalmente na poesia anterior cujo autor ainda não sei o nome. Aceito comentários e sugestões sobre o nome.

Dos 20 minutos antes ou De pensar em música?




A multidão o seguia. E não havia mundo no nada que fosse contra este fato.
O homem andava como um bêbado pelas ruas. Não havia nada que despertasse respeito por aquele homem. Braços de fora, um rosto comum e popular. Se o mundo não o desprezava, tampouco o percebia. Ninguém saberia dizer de onde ele veio. E ninguém queria saber.
Naquele mundo onde pessoas andavam para seus destinos já programados, ele andava já sem rumo depois de 42 anos de vida. As coisas rodavam em sua cabeça como sempre rodavam, mas pela primeira vez ele percebeu o quanto não conhecia o mundo, o quanto não conhecia o outro, o quanto não conhecia a si mesmo. Parando para pensar, esqueceu-se de andar e esbarrou em uma senhora que vinha no sentido oposto, perdeu o equilíbrio e caiu da calçada para a rua. Bateu com a cabeça no chão e sentiu o impacto. Sentiu o impacto. O impacto.
Foi a primeira vez que teve consciência de ter sentido algo. Já sabia que sentira algo em algum momento anterior, mas pela primeira vez foi consciente. Naquela queda descobriu a lei da gravidade, as leis da física e tudo o que lhe ensinavam na escola. Desde as leis de Newton até o sistema nervoso do corpo humano. Pela primeira vez viu que as coisas tinham alguma lógica quando ligadas entre si, e que essa lógica era justamente a unidade ilógica entre elas. Que ao sentir em sua cabeça o impacto, culpa da lei da gravidade e somente dela com todo o seu poder, essa tal lei era o que menos importava.
Levantou-se com os olhares das pessoas que não pararam para ajudá-lo. Já não lembrava para onde ia, e nem se importava. Olhou para um homem de terno que vinha em sua direção e puxou-o. Em sua cabeça tocava o bolero de Ravel. E dançou o bolero com o homem de terno, que deixou sua pasta com suas coisas caírem no chão. O homem de terno não entendeu. Não conseguiu codificar e talvez por isso sua mente trabalhou de forma estranha para aquele mundo. Sua mente pôs em seus toca-discos If you’re feeling sinister, música longínqua de sua adolescência de 13 anos. E começou a dançar com o homem que andava como bêbado. Dançavam músicas diferentes mas seus passos se completavam.
O homem bêbado deixou o homem e andava pelas ruas com um sorriso no rosto e dançando com os braços abertos. Gargalhava e divertia-se. Pegava nas mãos das pessoas e mostrava os dentes de forma hedionda como o homem mais feliz do mundo. Dançava a música de sua cabeça e esbarrava nas pessoas em volta, que confusas com aquela imagem, assim como o homem de terno, não decodificavam o que acontecia.
Mas aqueça dança despertava músicas e mais músicas em cada uma das cabeças não pensantes daquelas pessoas. E, talvez por simpatia, ou talvez por medo de perderem suas músicas, as pessoas acompanhavam e seguiam aquele homem desconhecido e insignificante. Não sabiam de onde ele vinha, mas ninguém se importava com isso. O homem seguia em frente dançando, cantando e sorrindo. E atrás dele uma multidão de pessoas dançando juntas a mesma dança, ouvindo cada um a sua própria música. Um carnaval silencioso. Uma ciranda muda a partir de um homem que andava como um bêbado.
A multidão o seguia. E não havia mundo no nada que fosse contra este fato.

Darte de caderno dATT ou Auto Avaliação

De um blog com datas indefinidas e função pessoal subjetiva. Da falta de tempo para escrever algo mais material porém da ideia de que ideias múltiplas e infinitas sejam reduzidas ou abreviadas em um www.pivosmose.blogspot.com.
Gostaria de ter tido mais tempo para uma elaboração mais completa como estudante, aluno e pessoa em matérias. Análise do Texto Teatral é o caso. A exposição de um blog pouco visitado é uma forma de começar um trabalho que continuará até eternum (a subversão do add eternum é proposital), enquanto meu eternum durar. E justamente quando meu tempo começa a ficar mais meu com o fim de ensaios, estreia de peças (A Princesa e a Ervilha em Niterói, no municipal. Me ligue e ganhe um ingresso amigo) e gravação de filmes, chega a hora de entregar ou parir este blog / caderno. E agora que eu vou poder começar eu tenho de entregar uma avaliação sujeita a julgamento meu e de outros. E um julgamento de origem europeia.
Fiz o quanto pude apesar de poder pouco nesses últimos três meses. Me comprometi a me comprometer apenas com a faculdade, mas os convites profissionais não deixaram a convicção vencer. Mas descobri uma nova vontade de escrever e manter um blog, um caderno e uma cabeça funcionando. Me diverti no sufoco dos "trabalhos de ATT". Talvez a presença de fora da aula tenha sido menor que a de dentro da aula. Pensei muito mas não consegui fazer tanta coisa assim. E nesse momento em que faço, as coisas vem como um fluxo guardado por esses meses.
Como auto-avaliador, me daria 8,5. Mas eu sou péssimo pra me auto avaliar. Gostaria de um padrão. Alguma média. Essa liberdade excessiva não me faz muito bem. Quanto mais posso fazer, menos eu faço.
Mas tenho feito. E pelo que me conheço, a evolução presente nestes últimos tempos me faz um rapaz um tanto diferente de tempos atrás.
O problema é que o rapaz continua com tanto trabalho quanto.