terça-feira, 31 de agosto de 2010

Dos desejos indesejados ou De como o mundo gira rápido só pra nos deixar tontos e enjoados



"Can we? Shall we?
One day very soon
Let us go away
Together
Just you and me
Can we? Shall we?
Call in sick one day
And travel to the sea
And hold hands all day
Can we? Shall we?
Eat our sandwiches on the train
Get drunk on fresh air
And come home tired
And never tell anyone...
Ever"


Rob Ryan

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"Você entrou no ônibus para Liverpool enquanto eu dormia e seguiu viagem..."

domingo, 8 de agosto de 2010

Dos chupões ou Da anta que mora em todos nós




Vou te matar aos pouquinhos.
Começar pela unha do teu mindinho esquerdo. E cortarei tuas unhas da sua esquerda para a direita dos pés. Da minha direita para a esquerda dos seus pés. E guardarei tuas unhas e só tuas unhas como lembrança já que as unhas têm todas o inevitável destino de se esvaírem com o tempo e se transformarem em uma matéria qualquer ainda não encontrada ou até conhecida pelos homens. Elas simplesmente se vão. Então as guardarei como lembrança.
Depois matarei teus pés com bolhas, as canelas com o inchaço do diabete, os joelhos com as articulações falhas e as coxas com chupões condenáveis por qualquer pai que tenha amor, ciúme e severidade violenta com sua filha.
Do quadril, os ossos frágeis que se quebram no primeira sentar e na vagina, eu só poderia descrever como as fotos que permearam minha infância vistas naquela exposição dos estudantes de medicina sobre DSTs. Tudo que poderia lembrar é que elas não eram agradáveis.
A barriga vem com vermes em seu interior e a cicatriz da apendicite mal curada. Teus braços com as gorduras de quem tem vergonha de dar tchau pelo movimento balançante ocasionado. O pescoço com torcicolo e a cabeça com piolhos e espinhas.
Te matarei aos pouquinhos porque não tenho coragem de te roubar o coração de uma vez só. Te matarei aos pouquinhos porque com todo o meu sadismo, ainda vou ter vontade de te cuidar, levar ao hospital e te querer no meu colo com toda a culpa de ter desejado isso. E quando morreres sentirei a culpa de ter te matado e nunca mais poderei tê-la de volta. Vou me apegar então às unhas que terão desaparecido misteriosamente do meu armário e suas lembranças terão ido embora. E somente por culpa minha, pois se não tivesse matado você aos pouquinhos, mataria a minha saudade com você viva por inteiro.
Mas ao mesmo tempo te ver viva por inteiro e ver que seu inteiro não precisa mais do meu pedaço para se sentir inteiro irá me matar aos pouquinhos. E quererei te matar aos pouquinhos para que morras junto comigo.
E ainda assim morreremos sozinhos? Quem no final das contas cuidará de quem?
Eu morrerei com minha culpa debaixo de meus lençóis.
E você, com a inocência.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

pisca-pisca ou da hipótese

"...a vida, Senhor Visconde, é um pisca - pisca.
A gente nasce, isto é, começa a piscar.
Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu.
Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso.
É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.
A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso.
Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia.
pisca e mama;
pisca e anda;
pisca e brinca;
pisca e estuda;
pisca e ama;
pisca e cria filhos;
pisca e geme os reumatismos;
por fim, pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre - perguntou o Visconde.
- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?"

Memórias de Emília, 1936 – Monteiro Lobato

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Do Hotel Medea ou Do teatro interativo contemporâneo pop de potência




São obras que te surpreendem.

Hotel Medea.

Primeiro, tenho de deixar claro que o local onde a peça foi encenada (Oi Futuro) não ajuda em nada o ritualístico da primeira parte do espetáculo. Com muita roda, rituais e bumba-meu-boi, a atmosfera rústica e popular pretendia contrasta diretamente com a galeria do Oi Futuro altamente ocidental e moderna. Ao procurar fotos, achei ela sendo feita ao ar livre com uma grande fogueira e um ar muito mais soturno. O clima deve ser muito menos de festa e mais de ritual (sendo repetitivo). Ali, parece uma tentativa de Teatro Oficina sem a mesma potencia.
Termino a primeira parte surpreendido, pois esperava algo muito mais pesado e menos festivo mas suspiro "pô, um entretenimento pop contemporâneo". E pretendo só me divertir deli pra frente. Eram menos de duas horas da manhã. A peça iria até as cinco.
Aliás, eu fui o "very important man" que informou a hora pro "condutor" da peça.
A plateia, neste começo é conduzida de forma coletiva, e o trabalho de interatividade e de participação co público é em cima de grupo. Danças e cantos entoados por todos levantando o tal do sentimento oceânico.

Mas, porém, contudo, todavia quando essa busca da coletividade é substituida pela individualidade a coisa muda e é impressionante.
É clichê dizer que o público se torna um personagem, mas é verdade. E não só parte de um coro, mas você tem individualidade no meio de tanta gente. Você não é mais um no meio de tantos mas é tratado de forma única. As babás contam história e te dão chocolate. Você não é representado por apenas uma pessoa catada da plateia mas sas ações individuais atuam sobre o ator/performer que está interagindo com você.

A relação conseguida na segunda parte com as camas, a Medéia, as babás e até mesmo com o Jasão (e eu não esquecerei tão cedo da babá me entregando o celular com a mensagem de meu pai desejando bons sonhos) é impressionante. Há um jogo de distanciamento e aproximação de uma potencia emocionante.

Na terceira parte o espectador já está entregue e se diverte em fazer parte da peça. A questão toda é que temos a impressão de que além de assistir, o espetáculo quer nos ouvir também. As babás conseguem de fato criar uma relação afetiva com seus filhos.

O espetáculo é bem fechado em sua estrutura e o espaço dado ao espectador é limitado à medida que a história tem que avançar na direção necessária. Mas nos momentos em que a peça pergunta algo a nós, a mágica acontece.

Eu achei o final um tanto fraco, a peça faz uma curva e perde fôlego justamente na sua última cena. Não senti um grande impacto como deveria, falta uma certa construção. Talvez eu tenha esvaziado em algum momento. Não mudou a minha vida mas foi um espetáculo que me deu material pra cacete como artista.

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E cada vez mais eu percebo que o público quer participar da porra do espetáculo. Seja em trabalhos de faculdade ou em espetáculos no Oi Futuro, se o público passa por uma experiência sensorial, além da experiência intelectual, a coisa toma uma medida de potencia incrível. As pessoas não querem mais o participar por participar. As pessoas querem viver, vivenciar o teatro.
Ou algo do tipo.
Vou pensar mais nisso nos meus trabalhos. Definitivamente.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Da figura e fundo de 1,5m por 1,5m ou De como pintar suja




A mão que afaga o pincel

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Do homem do guarda chuva ou De combinandinho na chuva




Deve ter sido ano passado.

Do falso diálogo ou D'eu não sei reproduzir a fala da Vovó Elza

- Vovó Elza - Amanhã, se fizer frio de manhã eu não vou pra minha aula de natação. Tá frio hoje? Tô sentindo um frio. Aí tenho que passar no supermercado pra comprar frango. Sua mãe só come frango. Só tenho 5 reais na bolsa. Ai não sei o que aconteceu esse mês que o dinheiro foi todo embora, mas a coisa vai melhorar. Deus vai dar um jeito nisso. Eu vou tirar meu dinheiro do banco. Todo mês eles tiram dinheiro de mim. Fui pegar dinheiro e estava faltando 200 reais. E nem posso pegar dinheiro emprestado porque já estou velha. Eles sempre me oferecem mas quando chego lá eles dizem "ô vovó, não vai dar, é só até 75 anos". Mas também, eu vou morrer antes de pagar tudo. Queria pegar um dinheiro pra deixar pra você e sua mãe, aí eu morro e vocês não pagam nada. Já está indo pra aula? Vai estudar, menino. Chega tarde hoje? Vai almoçar antes de sair? Tá passando jogo? Qual o jogo de hoje? Ah, queria que a África do Sul ganhasse. E a Argentina perdesse. Eu não gosto do Robinho. E essa coisa colorida do seu lado, o que é? Ela não fala nada? Senta aí, vou fazer uma carne assada pra você comer. Fica a vontade. É estrangeira? Hum, se seu avô tivesse aceitado aquele trabalho estariamos no México hoje. Quer feijão?
- Vuvuzela - Póóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóó óóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóó